Torniquete estreia no Olhar de Cinema e reafirma potência feminina no ‘cinema de autor’
O cinema paranaense viveu uma de suas noites mais intensas com a estreia de Torniquete na Mostra Competitiva Brasileira do 14º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, realizado entre 11 e 19 de junho. Dirigido por Ana Catarina Lugarini e produzido pela Sambaqui…
O cinema paranaense viveu uma de suas noites mais intensas com a estreia de Torniquete na Mostra Competitiva Brasileira do 14º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, realizado entre 11 e 19 de junho. Dirigido por Ana Catarina Lugarini e produzido pela Sambaqui Cultural em coprodução com a Veleiro Azul Filmes, o filme teve duas sessões — no Museu Oscar Niemeyer e no Cine Passeio — com ingressos esgotados logo nos primeiros dias de venda.
A estreia aconteceu no sábado, 14 de junho de 2025, às 21h na Sala Claro do MON, em Curitiba, e foi antecedida por um evento de recepção que reuniu público, elenco e equipe em clima de expectativa e celebração. Entre os presentes, destaque para Marieta Severo, que veio à capital paranaense especialmente para acompanhar a exibição. Marieta integra o trio protagonista ao lado das atrizes Sali Cimi e Renata Grazzini, que interpretam três mulheres de diferentes gerações reunidas sob o mesmo teto, em meio a memórias, silêncios e vínculos atravessados pelo trauma.

Torniquete é um retrato íntimo e contundente de um lar fragmentado por traumas invisíveis e vínculos ambíguos. Em cena, três mulheres precisam reinventar a convivência após mais uma invasão traumática. O filme se ancora em cicatrizes que atravessam o corpo e a linguagem, explorando a genealogia feminina como campo de tensão, escuta e reinvenção.
A experiência no set, composto majoritariamente por mulheres, também foi destacada pelas atrizes como parte fundamental do processo criativo. “Foi um ambiente muito acolhedor, muito confortável”, afirmou Renata Grazzini. “Ter um set com tantas mulheres fez toda a diferença”, completou Sali Cimi, que interpreta sua primeira protagonista no cinema.
Após a exibição, o público permaneceu para uma conversa com o elenco e parte da equipe criativa. A diretora Ana Catarina Lugarini dividiu o palco com o elenco principal, a diretora de fotografia Hellen Braga e o duo de direção de arte Edi & Laís. O debate foi marcado por trocas emocionadas e pela participação da atriz Marieta Severo – a principal celebridade da edição de 2025 do Olhar de Cinema – até o final.

A estreia de Torniquete marca também a chegada de Ana Catarina Lugarini ao longa-metragem, depois do reconhecimento conquistado com Da Janela Vejo o Mundo (2021), curta premiado e exibido em festivais pelo Brasil. Se naquele filme a diretora filmava sua própria avó, agora amplia o gesto para explorar as estruturas simbólicas e afetivas da linhagem feminina.
“Comecei a pensar nesse filme em 2018, então tem muita história, tem muito tempo e foi uma experiência muito boa, porque eu estava com um elenco e uma equipe muito boa ao meu lado”, contou a diretora Ana Catarina Lugarini. E completou: “Eu já me sinto realizada [com essa estreia]”.
Para o diretor geral do Olhar de Cinema, Antônio Gonçalves Júnior, “Torniquete é um trabalho muito sólido para uma primeira direção.” Com roteiro assinado pela diretora ao lado da co-roteirista por Alice Name-Bomtempo, Torniquete opta pela densidade emocional e pelo não dito como matéria estética, propondo uma dramaturgia em que o silêncio é uma presença inescapável.
A força simbólica do trio protagonista se traduz em atuações complementares que deslocam o olhar sobre o feminino sem recorrer a caricaturas ou sentimentalismos. “É um filme com poucos diálogos, mas muito sentimento. A gente tentou construir juntas esse clima através da fotografia, da locação, do elenco, figurino e arte”, explicou Hellen Braga.
A construção dessa ambiência também se reflete na trilha sonora original assinada por Daniel Simitan, compositor de filmes como Marte Um (2022). A trilha, marcada por sua sutileza e precisão, contribui para a densidade emocional do longa. “Foi um trabalho desafiador. Não é um filme fácil de compor. A trilha é bem delicada e minuciosa para achar o tom certo”, contou Simitan.
A finalização do filme reforça essa coesão estética entre som, imagem e atuação. “É um filme que tem uma densidade grande na atuação, na trilha, mas também na fotografia, então foi muito importante juntar essas camadas” destacou Ade Muri, produtor, responsável também pela finalização.

Marieta Severo falou sobre a experiência de trabalho com a diretora: “Ser dirigida por ela [Ana Catarina] foi muito tranquilo, eu fiquei muito confiante. Nas conversas a gente já vai sentindo quando o diretor está dominando o que ele quer e ela consegue transmitir isso de uma maneira suave, tranquila, firme, e ao mesmo tempo com uma escuta muito boa”.
A produção criativa é assinada por Joana Nin. Embora essa não seja uma função tão comum no cinema brasileiro, no exterior é uma das peças chave da engrenagem.
“O desafio é trabalhar com o material criativo que vem do diretor, do criador do projeto, e a partir dele buscar os melhores caminhos para a realização. No caso de Torniquete, eu destaco dois momentos em que a minha atuação na função de produtora criativa fizeram toda a diferença: quando eu decidi que a Ana Catarina deveria dividir a escrita com outra roteirista e chamamos a Alice (Name-Bomtempo) e quando sugeri o nome da Marieta Severo para interpretar a Lucinda. O filme não seria o mesmo sem essas duas presenças”, explica Joana Nin.
A recepção calorosa do público curitibano confirma a potência de um cinema que não se furta à vulnerabilidade e que encontra, justamente aí, sua força. A equipe da Sambaqui Cultural celebra não apenas o lançamento do filme, mas o encontro que ele proporcionou: entre realizadores, espectadores e uma cidade que se abre, mais uma vez, à escuta de vozes urgentes do cinema brasileiro contemporâneo.