

Eu acredito que a melhor forma de lançar um documentário relacionado a uma causa é aliar a força da campanha de impacto social ao poder de fogo do lançamento comercial. Transformar o engajamento de ativistas em alcance de público, seja ele pagante ou não. Coordenar as ações nas duas frentes potencializa os resultados e faz com que o filme tenha mais chances de ‘acontecer’, ou seja, tornar-se conhecido por aquelas pessoas que podem se beneficiar dele. Assim, de alguma forma, o documentário pode colaborar com importantes transformações sociais, ainda que não tenha o poder de produzi-las de forma isolada.
Joana Nin, diretora e produtora
A distribuição do longa-metragem Proibido Nascer no Paraíso foi realizada entre 2020 e 2023 por um time dedicado a testar a união entre as estratégias comerciais e os objetivos sociais do documentário. O filme ficou pronto em 2020, bem no começo da pandemia de Covid-19. Então, até mesmo a carreira de festivais de cinema foi afetada. Nem por isso a obra ficou distante do público, muito pelo contrário! Neste case você vai conhecer nossos principais resultados e os aprendizados que nos fortalecem para as novas jornadas.

Totalmente online, anterior ao lançamento comercial, com sessões debate para grupos fechados e a criação das redes sociais do projeto.
Estreia no cinema e nas plataformas de streaming.
Campanha de impacto social associada a uma turnê de relançamento nas salas de cinema, reabertas e novamente frequentadas.

Fase 1
(distribuidora)
Fase 2
(distribuidora)
Fase 3
(recursos incentivados: Profice/PR – Copel)
Fase 1
maio a dez. 2020
Público de impacto:
2.500 pessoas
Público de salas de cinema:
——
Fase 2
fev. a junho 2021
Público de impacto:
1.000 pessoas
Público de salas de cinema:
54 ingressos
Fase 3
set. de 2022 a início de 2023
Público de impacto:
4.000 pessoas
Público de salas de cinema:
1.129 ingressos
2.300 %
Público de impacto estimado
Fase 1Em plena pandemia, sem condições de lançar o documentário como planejado no projeto de distribuição, a diretora Joana Nin e a produtora de impacto Rossana Giesteira decidiram começar a trabalhar da forma possível naquele momento: online. Normalmente os filmes lançados com esta estratégia social começam a campanha com a realização de sessões-debate presenciais junto ao público-alvo, ativistas da causa do filme e simpatizantes. Mas com todo mundo trancado em casa e a convivência social desencorajada mundialmente, era preciso inovar.
Foram construídas parcerias com diversas entidades dedicadas à questão feminina, gravidez e parto, uma lista que chegou a somar 22 organizações ao final do projeto, a exemplo da Fiocruz – projeto Nascer no Brasil, OAB Mulher, Rede Rehuna e B2Mamy. As sessões aconteceram por meio de plataforma digital contratada pela distribuidora parceira, Boulevard Filmes. Os debates foram acalorados! De norte a sul do País, aquelas pessoas que ansiavam pelo documentário porque ele convergia com seus temas pessoais, foram somando forças e trazendo outros públicos. A diretora Joana Nin participou de lives de parceiros para falar sobre o filme e do Workshop do BrLab de distribuição de Impacto.


Fase 2A comunidade de Fernando de Noronha/PE foi a primeira a receber sessões do filme, realizadas em fevereiro de 2021 como pré-estreia. Em abril de 2021. o Cine Paradiso, em Florianópolis, realizou a primeira cine semana do filme.
No dia 1º de maio daquele ano, o documentário estreou no Canal GNT, referência entre os canais femininos no Brasil com 13 Milhões de pessoas na sua audiência e ficou disponível na plataforma de streaming Globoplay que possui 30 milhões de assinantes no Brasil.
Nesse período, a campanha nas redes sociais ganha fôlego e cresce o engajamento do público. Jornais, rádios, TVs e blogs também disseminaram o filme e começamos a receber o reconhecimento da crítica especializada e convites para entrevistas.
Fase 3O projeto de distribuição de impacto do documentário Proibido Nascer no Paraíso estava selecionado no edital Profice-PR para captação de recursos do ICMS do Estado do Paraná desde 2020, mas a pandemia também retardou muitas ações de fomento. Apenas em junho de 2022 conseguimos os recursos necessários para a realização da campanha.
O patrocínio da Copel tornou possíveis as ações que mais geraram a aproximação do filme com o público. Depois de dois meses de preparação, Proibido Nascer no Paraíso pousa no Cine Passeio no dia 20/10/2022, em Curitiba, com sessão e debate lotados!
Eu conheci professores de Obstetrícia que colocavam tranquilamente, ‘olha, parto é uma coisa muito simples: motor, objeto e trajeto’. “Motor” é o útero da mulher que empurra, “objeto” é o feto e “trajeto” é a vagina. Então, é contra essa visão mecânica que vem a proposta de humanizar, para lembrar que a mulher não é um útero, ela é um ser humano; o feto não é um objeto que vai sair da mulher; e a vagina não é só um trajeto, ela faz parte da mulher. E nem o profissional de saúde é o mecânico que vai consertar esse “motor” se ele tiver algum problema, se ele “enguiçar”.
Daphne Rattner – Médica, professora da UNB e Pres. da Rede ReHuNa

As mulheres precisam fazer parte dessa decisão. Assim, muitas vezes até em situações em que é necessário, de fato, a ida até o continente, isso vai ser aceito de uma forma mais tranquila porque ela fez parte daquela decisão. Não exatamente da forma como o filme mostra, como algo velado, de dizer que a mulher não tem cuidado com o seu bebê. Isso (essa estratégia) é usado para com todas as mulheres, usado com mulheres de classe média alta para serem convencidas a se submeter a uma cesariana, por exemplo. A gente precisa garantir o direito à informação de qualidade para que ela possa exercer, na sua plenitude, o seu direito à autonomia do próprio corpo.
Maísa Melo – Promotora de Justiça e idealizadora do Projeto Humanização do parto do MPPE
A revolução jamais irá surgir, se desenvolver e ter êxito dentro da categoria médica. Isso é irreal, você não vê em canto nenhum uma revolução, uma mudança de modelo, induzida pelos opressores, isso não existe. Então, a revolução há de vir das mulheres porque ela vai ser feminista, ou não será.
Dra. Melania Amorim – MD, PhD, Professora Universitária, Médica Ginecologista e Obstetra.
Em vários lugares do mundo há mulheres parindo em pequenos lugares, com profissionais da saúde assistindo e fazendo a seleção daquelas que têm complicações.(…) Há condições de se conhecer o que se passa em outros lugares onde a mulher é mais respeitada para que as nossas mulheres brasileiras possam também ser respeitadas, e parir onde elas vivem. Eu acho que isso é viável, e tem sido viável fora do Brasil.
Maria do Carmo Leal – Coordenadora do Estudo “Nascer no Brasil”, ENSP FioCruz
Aqui em Pernambuco, a Comissão da Mulher Advogada assistiu a esse filme numa sessão privada. Todas as integrantes da comissão – acho que foram mais de 50 – que assistiram esse filme, todas ficaram atordoadas em relação ao que acontece na ilha. Mas não é somente na ilha, é importante dizer que milhares de mulheres, na verdade, não podem tomar decisões essenciais sobre seus corpos. (…) É um problema nacional, é um problema planetário.
Fabiana Leite – Presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB/PE.
Achei o documentário importantíssimo, é preciso continuar falando sobre esse assunto, sobre violência obstétrica, sobre como as mulheres têm os seus direitos o tempo inteiro deturpados e ameaçados pelo Estado. Então, o que a gente vê ali é mais uma tentativa de controle dos corpos femininos. É muito importante permitir que essas mulheres possam parir onde elas escolham, que tenham essa autonomia.
Mayara Abdul-Khalek, ginecologista e obstetra, ativista pelo parto humanizado.


Oriento meu trabalho pensando em fazer filmes que sejam capazes de mudar alguma coisa na sociedade, ou pelo menos jogar luz sobre algo que estava escondido. Seja uma mudança pequena ou estrutural, o cinema para mim passa por isso: transformação. Mas no mundo do documentário, há um obstáculo tão grande quanto desolador, que é a dificuldade de fazer com que o público descubra que nossos filmes existem. Sou inconformada com isso, a gente não faz filmes para deixá-los dormindo na prateleira depois. E foi esse sentimento que me fez ser atraída pelo movimento mundial e crescente em torno do documentário de impacto. Desde que lancei meu primeiro longa, em 2015, pesquiso formas de trabalhar para atrair público. Decidi dedicar meu mestrado a este tema e em agosto de 2022 defendi a dissertação Filmes para Mudar o Mundo: produção e distribuição de documentários de impacto social (PUC-RJ). Busquei investigar como funciona essa nova metodologia de distribuição, uma associação entre engajamento social e comunicação estratégica, voltada para as transformações sociais. Há exemplos de sucesso na Inglaterra e nos Estados Unidos, em que os documentários conseguem, de fato, provocar discussões e desencadear mudanças que vão impactar positivamente a vida de diversas pessoas e transformar contextos. Então acredito que sim, é possível realizar documentários que tenham apelo de público.
No Brasil, estamos “experimentando” como isso funciona na prática e eu resolvi testar esse método na campanha de impacto do meu filme Proibido Nascer no Paraíso. Isso partiu de alguns questionamentos. Como assim, as mulheres não podem escolher nem mesmo onde e como querem ter seus bebês? Que regras são estas que nos impedem de decidir sobre nossos próprios corpos, simplesmente porque estamos grávidas? É daí que surge o desejo de chamar mais gente para pensar sobre isso, porque quando a sessão do filme acaba, essas perguntas não podem ficar sem resposta. Precisamos provocar a reflexão e chamar a atenção para algo que existe e está escondido em muitos “paraísos” turísticos em todo o país. Espero que o filme tenha de alguma forma contribuído para aprofundar este debate. Agradeço a quem esteve conosco nessa empreitada.


Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades.

Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.

Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles.
Equipe de distribuição · campanha de impacto & lançamento comercial
Direção e produção · executiva Joana Nin; Produção de lançamento · Letícia Friedrich e João Saldanha/ Boulevard Filmes; Programação de salas · Letícia Santinon, Elói Pires e Talício Sirino (PR). Produção de Impacto · Rossana Giesteira (coordenação) e Linda Marina. Articuladora local · Carolina Damião; Assistente de articulação local · Fabiana Motooka; Designers gráficos da campanha · Marcellus Schnell e Martha Barros; Assessoria de imprensa e redes sociais · Paula Ferraz e Txai Ferraz (fase 2); Larissa Biscaia e Beatriz Ponte (fase 3); assistente de produção executiva · Sabrina Trentim e Paty Muri. Criação do guia para sessões de impacto · Sabrina Demozzi e Matheus Coimbra. Agradecimento · Andreza Rodrigues; Parceria de exibições de impacto · Taturana Mobilização Social; Tradução de textos · Paulo Scarpa; Landing Page · Rogério Mosimann – Infomídia.
Ficha técnica do filme · Proibido Nascer no Paraíso (78’, BR, 2021)
Produção · Joana Nin e Ade Muri / Sambaqui Cultural; Direção · Joana Nin; Roteiro · Joana Nin; Sandra Nodari e Julia Lea de Toledo; Pesquisa · Sandra Nodari; Assistente de direção · Julia Lea de Toledo; Produção Executiva · Joana Nin e Chris Spode; Direção de Fotografia · Rafael Mazza, Elisandro Dalcin e Cosmo Roncon Jr.; Fotografia adicional e drone · Fábio Borges; Som Direto · Roberto Oliveira; Direção de produção · Paula Alves; Montagem · Nina Galanternick; Produtor de Finalização · Ade Muri; Trilha sonora original · Fábio Nin; Design Gráfico · Marcellus Schnell; Supervisão de edição de som · Miriam Biderman, ABC. Desenho de som e mixagem · Ricardo Reis, ABC.
